Quando falamos em práticas sustentáveis nas empresas, o olhar e a ação devem ir muito além do E (Environment – ESG): começam com decisões. Um exemplo simples e claro está na execução de Programas de Capacitação de Fornecedores Locais, previsto em licenciamentos ambientais pela maioria dos empreendimentos.
Essa é uma ação importante, pois fornecedores de municípios pequenos muitas vezes trabalham na informalidade, e têm pouca ou nenhuma noção de gestão de negócio (formação de preço, preocupação com qualidade de produtos/ serviços, cumprimento de prazos, dentre outros).
Mas o que realmente o caracteriza como uma ação de sustentabilidade, já pensou nisso? Fica aqui uma pergunta: do total de fornecedores locais que tiveram acesso ao programa, quantos ainda permanecem fornecedores do seu empreendimento e/ou estão aptos a participarem de cotações em sua fase de operação?
Como não temos essas estatísticas, nossa atenção e reflexão se volta a relatos que temos ouvido:
- Será que há uma adaptação das políticas e processos de suprimentos dos empreendimentos para receber pequenos e médios fornecedores? Por exemplo: flexibilização e desburocratização dos processos de aquisições; adequação das condições de pagamento, faturamento, escolha de plataformas de supply mais amigáveis etc.
- Os empreendimentos usam do seu poder de influência para promover articulações com grandes fornecedores e associações comerciais para estimular a contratação de pequenas e médias empresas locais?
- Ainda sobre sua capacidade de influência, que tal estabelecer parcerias com agentes financiadores e facilitar linhas de crédito para que esses fornecedores tenham acesso a recursos financeiros para investirem na qualificação de mão de obra, equipamentos e melhoria em seus negócios e se tornarem mais competitivos?
A falta de sustentabilidade na relação com fornecedores locais recai sobre alguns desafios (podem existir outros, não pretendemos ser exaustivos aqui): implantar as ações acima dá trabalho, demandam dedicação e tempo dos profissionais para lidar com situações adversas; são necessárias mudanças internas (adequação em processos e ferramentas de supply); exige maturidade em sustentabilidade para engajar suas partes interessadas (cadeia de fornecimento, parceiros de negócios). Além disso, há o desafio de garantir a perenidade desse programa (a contratação de uma entidade para implantar o programa é fácil, difícil é mantê-lo ao longo dos anos); e na criação de indicadores de avaliação e monitoramento para mensurar o quanto esse programa contribuiu para o real desenvolvimento da região onde o empreendimento está instalado.
São desafios reais e presentes em muitos empreendimentos, mas que precisam ser avaliados, discutidos e resolvidos. Afinal, se uma empresa quer realmente praticar a sustentabilidade, é importante começar pelo que está em suas mãos (decisões). Sabemos que há bons programas por aí, mas nossa percepção é de que estes são exceções.
Reflexões de um bate-papo entre Claúdia Grecco e Aljan Machado




